» » » Enem completa 20 anos de criação em 2018

A ferramenta surgiu com o objetivo de avaliar competências e habilidades dos alunos concluintes da educação básicaFoto: Brenda Alcântara                                                 
A partir da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) - nº 9.394/1996 -, que atribuiu ao Governo Federal assegurar a avaliação do rendimento escolar para definir as prioridades e melhorias na qualidade do ensino, o Ministério da Educação (MEC) instituiu, em 1998, junto ao Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), a aplicação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) nas escolas. A ferramenta surgiu como uma proposta inovadora para avaliar competências e habilidades dos alunos concluintes da educação básica. Duas décadas se passaram e o que antes servia como um instrumento de avaliação de desempenho de estudantes, aplicado em unidades das redes públicas e privadas, tornou-se a principal porta de entrada para mais de mil instituições de ensino superior em todo o Brasil. Nesta segunda-feira (7), a partir das 10h, começam as inscrições para a edição 2018 do Enem, que seguem até as 23h59 do próximo dia 18. As provas serão aplicadas nos dias 4 e 11 de novembro. Educadores lembram que, em seu primeiro ano, foram registrados 157.221 inscritos em 184 municípios brasileiros - em Pernambuco, 6.032 estudantes participaram das provas; já no ano seguinte, esse número subiu para 7.968 participantes. A prova era realizada em um único dia, com quatro horas de duração, e havia 63 questões. “A proposta do Enem foi criar um conceito mais abrangente de interdisciplinaridade em que os conteúdos aprendidos não ficassem guardados, mas fossem aplicados para resolver problemas. Tínhamos as questões objetivas e a redação. Era uma prova agradável, inteligente e que conversava com os jovens”, afirmou a presidente do Inep, Maria Inês Fini. 
“Esse formato de avaliação encantou os jovens. Lembro que recebi um telefonema de um estudante afirmando que finalmente o MEC havia acertado”, completou. O processo de consolidação do Exame Nacional do Ensino Médio implicou diretamente na metodologia usada em sala de aula. “No início, houve muita resistência por parte das instituições e, é claro, os alunos fazem parte delas também, porque o Enem saía da zona de conforto em absolutamente tudo: na forma de capacitar o professor, na maneira de pensar as avaliações, no trabalho da educação sob a perspectiva de processo assistemático e na própria forma de avaliar o aluno, que passa a ser pensante, questionador e problematizador”, comentou Sandra Lima, professora de produção de texto do Colégio São Luís Marista.  O grande divisor de águas do Enem foi em 2009, quando o exame passou a substituir o modelo tradicional de vestibular para acesso às universidades públicas, tornando-se um processo unificado. O número de inscritos nessa edição foi mais de 4,1 milhões - em Pernambuco foram 207.848 candidatos inscritos. Com mais rigor e um nível de dificuldade maior para evitar o famoso “decoreba”, o teste passou a ter 180 perguntas distribuídas entre as seguintes áreas de conhecimento: linguagens, matemática, ciências da natureza e ciências humanas, além da redação. As provas eram realizadas em dois dias seguidos (sábado e domingo). As notas do Enem também se tornaram fundamentais para os programas do Governo Federal, como o Programa Universidade para Todos (Prouni), Sistema de Seleção Unificada (Sisu) e o Fundo de Financiamento Estudantil (Fies). Professora de língua portuguesa há 12 anos, Fernanda Vasconcelos, da Escola de Referência em Ensino Médio (Erem) Ginásio Pernambucano - Aurora, também concorda com a transformação que o Enem trouxe na dinâmica dentro da sala de aula e que os alunos passaram a interagir mais. “Eles ficam mais atentos ao que liga uma disciplina à outra. Aquele aluno que quer fazer medicina não fica mais preso só à biologia, por exemplo. Ele tem quer conhecimento em outras áreas”, disse. Outra grande mudança no Exame Nacional ocorreu no ano passado. As provas passaram a ser aplicadas em dois domingos consecutivos e a divisão das áreas de conhecimento passou a ser: ciências humanas, linguagens e redação, no primeiro dia; e, no último dia de prova, os candidatos devem ir preparados para fazerem prova de matemática e ciências da natureza. Foi também em 2017 que houve a suspensão do uso das notas do Enem para a obtenção do certificado de conclusão do ensino médio para aqueles estudantes que não conseguiram terminar os estudos no tempo adequado. O certificado só pode ser obtido por meio do Exame Nacional para Certificações de Competências de Jovens e Adultos (Encceja). Para a edição 2018, as mudanças ocorreram no pedido da taxa de isenção, que pode ser feito antes do período de inscrições. E os alunos agora vão ter 30 minutos a mais para fazerem as provas no segundo dia - passou de 4h30 para 5h de avaliação. 

Polêmicas e segurança

Ao longo destas duas décadas, o Exame Nacional do Ensino Médio também acumulou polêmicas e a segurança na aplicação das provas para evitar vazamentos de informações se tornou o principal foco do Ministério da Educação e do Inep. “O sigilo da prova, no caso do Enem, é muito importante. Nós temos acompanhamento de várias instituições, temos apoio da Polícia Federal e vamos nos reunir com a Secretaria de Segurança. Portanto, todos os mecanismos de segurança estão sendo mantidos e, inclusive, ampliados”, declarou o ministro da Educação, Rossieli Soares.  Em 2009, houve um furto das provas dentro da gráfica responsável pela impressão dos cadernos. Com o vazamento, o Enem teve que ser adiado e os prejuízos para os estudantes foram enormes. Devido ao cronograma, algumas universidades desistiram de usar a nota do exame em seus processos seletivos. O fato causou o esvaziamento de candidatos no segundo dia de prova e essa edição registrou 37,7% ausência. No ano seguinte, o tema da redação, “Trabalho na construção da dignidade humana“, foi vazado por uma aplicadora da prova na Bahia, que enviou o tema para o filho. Eles foram processados e o filho desclassificado. Em 2011, no Ceará, alunos de uma escola particular tiveram acesso ao conteúdo do pré-teste do Enem. O MEC decidiu que não iria cancelar o Exame, mas os alunos daquela escola tiveram que fazer uma nova avaliação em outra data. “Estamos falando de uma seleção nacional e que exige logística e um trabalho orquestrado. É importante que o órgão que a organiza dê a credibilidade de que a seleção será segura e tranquila para que os alunos não se desestabilizem e não se sintam injustiçados”, comentou a professora Sandra Lima. Em 2017, o MEC divulgou na Cartilha do Participante que o candidato que ferir os direitos humanos na redação teria a nota zerada. O Superior Tribunal Federal (STF) anulou essa decisão, mas, a partir deste ano, o candidato poderá perder até 200 pontos caso o texto escrito na redação desrespeite os direitos humanos.

Sem fórmula mágica
Não existe fórmula exata ou mágica para fazer uma boa pontuação no Enem, além de dedicação e muito estudo. O exame transformou a educação no País, e, consequentemente o perfil dos jovens que passam a vida escolar se preparando para a realização da prova. A rotina dos estudantes é praticamente a mesma: escola, estudos em casa e, muitas vezes, os cursinhos para complementar o ensino. O desejo de cursar educação física na Universidade de Pernambuco (UPE) surgiu há três anos e, desde então, Davyson Lucas, 17 anos, começou a intensificar seus estudos. “A escola e os professores têm um papel fundamental. Eles são responsáveis pela nossa base, mas também procuro ter disciplina para estudar em casa”, disse o estudante da Erem Ginásio Pernambucano. O diálogo fora da sala de aula também é importante na preparação desses jovens. Foi por meio das conversas e orientações em casa que Bruna Figueiredo, 16, começou a entender um pouco sobre o que é o Enem e o peso dele.  “Entrei na escola em 2007 e o Enem ainda não tinha essa dimensão. Foi quando ele passou a ser a principal forma de entrar na universidade que a preparação partiu não só na escola, mas através de conversas com meus pais e familiares. Passei a receber mais informações e esse contato mais próximo”, disse Bruna, que estuda no Colégio Marista São Luís e quer cursar nutrição, na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Lidar com a carga horária, a multidisciplinaridade abordada na prova e a pressão social que existe para ingressar em uma instituição de ensino superior é também um peso muito grande. “Desde a oitava série, eu foco nos estudos, mas tenho em mente que não é algo que servirá só para o Enem. O conhecimento é algo que vamos poder usar para a vida. É importante descansar, aproveitar o tempo com outras coisas que gostamos para conseguir relaxar mais”, afirmou Antônio Andrade, 16, também do Colégio São Luís.

Diálogo entre os ensinos médio e superior

E depois do Enem? O aluno passa boa parte da vida escolar se preparando para fazer o Exame Nacional do Ensino Médio, mas, será que com essas mudanças na abordagem das disciplinas, esse estudante está preparado para a universidade. O professor de matemática Jairo Texeira, relembra que quando prestou o vestibular para engenharia, sua preparação foi toda baseada em conteúdos, com questões ditas como “secas”. Ainda assim foi difícil acompanhar o ritmo no primeiro período de faculdade, no qual era exigido uma matemática mais aprofundada. “É absurda a quantidade de alunos que entraram no curso de engenharia e não conseguem acompanhar o ritmo. O aluno quando entra na universidade, por exemplo, consegue nota boa e entra para um curso de engenharia, que é muito difícil, lá vai precisar de uma bagagem conteúdista. E isso às vezes falta”, declarou o professor. Para a presidente do Inep, Maria Inês Fini, o ensino superior deveria ter um olhar mais atento com o ensino médio. “Existe uma distância das universidades desse modelo de ensino mais renovado trazido pelo ensino médio. E isso contribui para a evasão dos estudantes nessa etapa. É necessário haver uma adequação diante das novas propostas curriculares, das novas profissões”, declarou.  A reitora da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), Maria José de Sena, não considera as duas esferas em questão distantes uma da outra e acredita que há uma construção constante na educação. “O Enem chegou para dar uma nova roupagem no ensino, com uma prova mais contextualizada e interdisciplinar. Os conteúdos são muito mais interligados. Essa conversa entre ensino médio e ensino superior precisa existir e isso já está sendo construído”, afirmou a professora. Maria José ainda explica que muitas escolas já procuram manter esse diálogo mais próximo com as universidades. “Não estamos formando só o engenheiro, ou só o médico, só o advogado. Estamos buscando formar um profissional com uma carga técnica e humanística. Não adianta só o profissional que tenha conhecimento consolidado na sua área. Ele precisa lidar com tudo a sua volta”, finaliza.
 
Fonte Folha de Pernambuco
Postado por Júnior Silva em Limoeiro (PE), sábado, maio 05/2018

«
Nex
Postagem mais recente
»
Previous
Postagem mais antiga